segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Estudo da Personalidade: Avaliação, Pesquisa e Teoria



Todo homem é, sob certos aspectos, como todos os homens, como certos homens e como nenhum outro homem. (Allport)

O que isso quer dizer exatamente? A primeira parte da frase, todo homem é, sob certos aspectos, como todos os outros homens, nos diz que biologicamente, fisiologicamente e linguisticamente, salvo alguma anomalia, somos todos iguais, pertencentes à raça humana. A segunda parte da frase, como certos homens, nos diz dos nossos aspectos culturais, sociais, que pertencemos a certos grupos e temos algo em comum com eles. E a terceira parte da frase, como nenhum outro homem, nos fala daquela partícula, mesmo pequena, que nos difere do outro, que é a nossa subjetividade. O conjunto destes três fatores é que pode determinar quem somos nós, nossa personalidade.

A Psicologia, desde seu surgimento, vem se debatendo com esses três fatores. Alguns teóricos vão dar mais importância para os aspectos biológicos, outros para os aspectos culturais e outros, como os teóricos da Psicanálise vão dar mais ênfase ao estudo da subjetividade.

E qual é o lugar do estudo da personalidade na história da Psicologia? A Psicologia surgiu como ciência independente e experimental de um conjunto de idéias emprestadas da Filosofia e da Biologia, no final do século XIX, na Alemanha, com a criação do primeiro laboratório de psicologia em 1879, na Universidade de Leipzig, por Wilhelm Wundt. Essa nova ciência concentrou-se nos estudos do consciente, sendo que os métodos empregados para esse estudo teve como modelo o enfoque utilizado nas ciências naturais. “Se o mundo físico podia ser compreendido sendo desmembrado em elementos, a mente ou o mundo mental não poderia ser estudado do mesmo modo?” (Schultz & Schultz, 2008, p. 06). Utilizando o método experimental, eles estavam concentrados em estudar os processos mentais que poderiam ser afetados por algum estímulo externo que poderia ser manipulado e controlado pelo experimentador.

Posteriormente, nas primeiras décadas do século XX, John B. Watson, provocou uma revolução contra o trabalho de Wundt, criando a escola de psicologia denominada behaviorismo, que opunha-se ao foco de Wundt na experiência consciente. Para ele, a psicologia deveria deter-se aos aspectos tangíveis da natureza humana, ou seja, o comportamento evidente, e não o consciente. O behaviorismo apresenta uma visão mecanicista dos seres humanos, que respondem automaticamente a estímulos externos. Para eles, a personalidade foi reduzida ao que podia ser visto e observado objetivamente, não sobrando espaço para as forças do consciente e muito menos do inconsciente.

Uma terceira linha de pensamento surgiu independente das idéias de Wundt e Watson, e foram investigadas por Sigmund Freud, a partir da década de 1890. Ele chamou seu sistema de Psicanálise, e elaborou sua teoria com base na observação clinica de seus pacientes. Ele afirmava que as ações e os desejos humanos não são frutos de nossa vontade, mas sim de nosso inconsciente. Inspirado nesse enfoque psicanalítico, um grupo de teóricos da personalidade desenvolveu conceitos próprios do comportamento humano fora da corrente principal da psicologia experimental.

No final da década de 1930, com os trabalhos e estudos de Henry Murray e Gordon Allport, na Universidade de Harvard, o estudo da personalidade foi formalizado e sistematizado.  Hoje, cada vez mais os psicólogos experimentais utilizam os conceitos da teoria de Freud e cada vez mais os psicanalistas vêem benefícios no enfoque experimental, mas ainda não há uma fusão completa da Psicanálise e da Psicologia Experimental.

Mas afinal, o que é a Personalidade? Para começar, todos nós temos uma personalidade e é ela que vai determinar grande parte de nossa vida, no presente e no futuro. No dia a dia, costumamos descrevermos de inúmeras maneiras, e podemos falar que “fulano” tem a personalidade forte, fraca ou até mesmo “sem” personalidade. Todos esses são termos vagos, do senso comum, e não diz nada do significado real da personalidade.

A palavra personalidade vem da palavra latina “persona”, e se refere à máscara utilizada pelos atores em uma peça. Persona, então, passou a se referir à aparência externa que mostramos aos outros. Mas personalidade não é só isso. Uma de suas definições é o conjunto de “aspectos internos e externos peculiares relativamente permanentes do caráter de uma pessoa que influenciam o comportamento em diferentes situações” (Schultz & Schultz, 2008, p. 09). Diferenças de gênero, etnia e herança cultural podem, também, influenciar o desenvolvimento da personalidade.

A Avaliação no Estudo da Personalidade

As técnicas de avaliação diferem quanto ao nível de objetividade e subjetividade, sendo que as melhores técnicas de avaliação da personalidade precisam preencher três requisitos:

Padronização: consistência das condições e dos procedimentos para a aplicação de um teste.

Confiabilidade: é a consistência e a coerência de respostas a um dispositivo de  avaliação psicológica.

Validade: até que ponto o teste mede o que pretende medir.

Métodos de avaliação

Inventários de auto-relatos: as pessoas relatam sobre si mesmas respondendo a perguntas sobre o seu comportamento e sensações em várias situações. Esse tipo de teste é mais objetivo e não pode ser influenciado por tendências pessoais ou teóricas. Ex.: MMPI, MMPI-2, CPI.

Técnicas projetivas: tentam investigar o inconsciente. São mais subjetivas e consideradas de baixa confiabilidade, pois o resultado depende da examinação subjetiva do examinador. Ex.: Técnica do borrão de Rorschach, Técnica do borrão de Holtzman, TAT.

Entrevistas clínicas: também utilizadas para avaliar a personalidade, sendo sua interpretação também subjetiva. As informações são obtidas fazendo-se perguntas sobre as experiências de vida, relacionamentos familiares e sociais e os problemas que o levaram a procurar ajuda psicológica.

Avaliação comportamental: um observador avalia as respostas de uma pessoa em uma situação específica.

Amostragem de idéias: as pessoas registram suas próprias idéias, sistematicamente, durante um determinado período de tempo.

A pesquisa no estudo da personalidade

Um dos critérios para que uma teoria da personalidade seja considerada útil é que ela deve ser testável através de pesquisas. O método utilizado depende do aspecto da personalidade que está sendo investigado: comportamento manifesto, sentimentos e experiências conscientes ou forças inconscientes que nos motivam. As pesquisas podem ser:

Pesquisa idiográfica: é o estudo intensivo de uma quantidade pequena de pessoas utilizando uma série de técnicas de avaliação.

Pesquisa nomotética: é o estudo das diferenças estatísticas entre grande grupo de pessoas.

Os três métodos principais utilizados na pesquisa de personalidade são:

Método clínico: é o estudo de caso, um histórico detalhado de uma pessoa. É uma minibiografia da vida emocional da pessoa desde os primeiros anos da vida até o momento, incluindo sentimentos, temores e vivências.

Método experimental: é um método mais preciso de pesquisa psicológica. Pode determinar o efeito de uma única variável (estímulo que as pessoas são expostas) no comportamento das pessoas.

Método correlacional: os psicólogos estudam a relação entre duas variáveis para determinar como o comportamento em uma variável muda em função da outra.

A Teoria no Estudo da Personalidade

As teorias são conjuntos de princípios utilizados para explicar uma determinada categoria de fenômenos (comportamento, por exemplo). As teorias da personalidade devem ser capazes de esclarecer e explicar os dados sobre ela de maneira organizada e coerente. Elas servem para prever e entender comportamentos e as que puderem ser testadas e conseguirem explicar, compreender e prever comportamentos poderão ser aplicadas para ajudar as pessoas a mudarem suas condutas, sentimentos e emoções. Existem as teorias formais, que se firmam a partir da observação de uma grande quantidade e tipos diferentes de pessoas, sendo mais objetivas e repetidamente testadas frente à realidade.

Algumas teorias da personalidade desenvolvidas podem ser parcialmente autobiográficas, refletindo as experiências de vida de um determinado teórico. A primeira etapa da construção de uma teoria pode ser intuitiva e posteriormente modificada pelo conhecimento racional e empírico.



Eliane Floriano Colombo
Aluna do 3º semestre do curso de Graduação em Psicologia
Faculdade Anhanguera – unidade Anchieta


Referências Bibliográficas

SCHULTZ, D.; SCHULTZ, S. Teorias da Personalidade. 1ª Edição. São Paulo: Cengage Learning, 2008.






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